quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Mais rápidos, porém mais superficiais

Uma das questões levantadas em nossa primeira reunião de discussão sobre os efeitos da Internet no Social foi a da velocidade vs. a superficialidade.

Hoje, o encontro de informações se dá de maneira quase instantânea. Num clique, conseguimos acesso a conteúdos que em outros tempos levaríamos semanas, meses ou sequer encontraríamos. As conseqüências e as causas do Efeito Estufa são reveladas em segundos nos nossos monitores. Podemos levantar quantos e onde estão os famintos no mundo com apenas um "enter" do teclado. Tratamentos para doenças antigas como nossa própria espécie ou tão novas que seu nome ainda é investigado entre suspiros e angústias são apresentados num virar da ampulheta eletrônica. Teses, ações, soluções e propostas para questões filosóficas, teológicas, sociais, ambientais, econômicas etc. são visualizadas na mesma velocidade. O acesso à informação, mais do que em qualquer outro momento da humanidade, é garantido.

Porém, se desviar da imagem da criança famélica e chorosa e passar para uma página com vídeos da estrela do momento fazendo sexo na praia se dá na mesma velocidade e com a mesma facilidade. Passamos pelas informações como se construíssemos um gigantesco mosaico de imagens. Imagens que se unem pela cola da indiferença produzida pela anestesia do constante, da proteção da virtualidade, do não-aprofundamento, da fome pelo novo.

A caudalosa onda de informações pela qual surfamos nos deixa de visão ampla de horizontes quando estamos em sua crista. Mas dificilmente mergulhamos na superfície espelhada do oceano físico e sentimos sua consistência, suas águas geladas ou mornas. Passamos por cima sem sentir o sabor do sal.

Ganhamos um mosaico exuberante de informações, mas que não tem espessura maior que o vidro que separa esse texto dos seus olhos neste momento.

Ou, por outro lado, os rápidos fragmentos seriam em tal quantidade que, pela dimensão, compensariam sua disposição plana?

Sei que, em geral, o contemporâneo pode nos parecer raso à primeira vista. Lobato e os da Semana de 22 que o digam. Mas a velocidade que nos move hoje é tamanha que deixa pouco espaço para a reflexão. Vivemos como lagartos corredores patinando na superfície para não afundar. Se pararmos, afogaremos? Sabemos para onde vamos tão desabaladamente? Temos consciência do percurso? Do que deixamos pra trás? Ou seguimos movidos apenas pela nossa natureza? Neste caso, deixamos o leme em boas mãos?

5 comentários:

eFregni Consultoria disse...

A analogia com mosaico é muito boa (lembra inclusive o nome do primeiro browser concebido em 1992, o que redefiniu a internet- vejam: http://en.wikipedia.org/wiki/Mosaic_(web_browser).

O que me vem à mente é que esse mosaico a que o newton se refere surge na justaposição de diferentes experiências que se tem ao navegar-se na Internet (outra idéia interessante... a de navegar...). Mosaico composto por pequenos momentos, lampejos... Tudo é superfície plana, tudo é raso. Um convite ao superficialismo - navega-se na superfície.

Mas tem um outro lado. A qualquer momento pode-se interromper a navegação e aprofundar (uma melhor idéia vem do inglês "drill down"). Nesse caso, termina o mosaico, e o convite é oposto. Não é mais a pele tatuada, são as entranhas que se expoõem. Muita metáfora?

Tem mais um lado. Todo mosaico se sintetiza numa imagem unificada. A pergunta interessante seria entendermos qual seria essa imagem no contexto da discussão proposta pelo Newton.

Quero lembrar de um detalhe que emergiu durante nossas discussões: a facilidade e gratuidade do acesso às informaçoes as tornam bens descartáveis. A contrapartida a isso é a atitude consumista de quem a dispõe. Consumismo, me parece, induz ao superficialismo.

mais até: a economia da abundância parece radicalizar certos aspectos da sociedade - alguns desses me parece serem: imediatismo, consumismo, superficialismo... todos animais da mesma raça. Talvez eu esteja exagerando...

Anônimo disse...

Continuando meu comentário anterior... Dizia que facilidade e gratuidade tornam a informação descartável.

Por outro lado, abundância e gratuidade parecem trazer consigo baixa qualidade.A conseqüência parece ser que cada vez mais se dará cada vez menos crédito ao que se encontra na Internet. A necessidade se validar o conteúdo, inviabilizará o superficialismo sem críticas. SERÁ?

Newton Branda disse...

Newton Branda disse...
Não lembrava do Mosaic! Que legal! :)

Também gostei muito da expressão "drill down", não conhecia. É como se olhássemos um mapa, escolhessemos um ponto e perfurássemos rumo à substância. Muito bom...

Neste sentido (o do aprofundar-se), faz com que eu me lembre de um comentário da jornalista Barbara Gancia se referindo à Internet: "tenho acesso a todo tipo de informação. Posso saber sobre qualquer coisa em segundos. Mas, olho pro meu monitor e penso:'afinal, que pergunta eu faço?'" hehehehehe

Para mim, a razão pelo pouco aprofundamento não tem nada a ver com as facilidades que a web oferece. Seria como culpar um livro por não ter sido aberto. Acho que a questão passa mais pelo estímulo social ao consumo constante (como o Edson bem marcou).

Hoje, os produtos são produzidos para não durar, isto é, já vêm com data de validade e substitutos planejados. Este comportamento, infelizmente, acaba se projetando na Cultura e nas Relações Humanas. "Tudo, cedo ou tarde (de preferência, cedo) pode e deve ser substituído pelo modelo/estilo mais novo". Neste ciclo não renovável, quanto mais cedo o velho for descartado, melhor.

Assim, não é permitido tempo algum para se parar e mergulhar na densidade das pessoas e objetos. Como disse Marshall Berman: "hoje, tudo o que é sólido se desmancha no ar" .

Anônimo disse...

Gostaria de chamar a atenção para um novo aspecto [Newton: talvez devesse ser um novo tópico]: o da propriedade intelectual.

Acho que nada melhor que o texto recentemente postado por Chris Anderson no seu site:
http://www.thelongtail.com/

Ali ele fala de seu livro (The Long Tail), pirateado no Bit Torrent e demonstra sua satisfação com isso. Ele se justifica com uma uma frase de Tim Reilly:
"Obscurity is a far greater threat to authors and creative artists than piracy"

Parece-me que isso marca um novo paradigma no mundo da criação intelectual (e artística). Aceita-se trocar direitos por popularidade.

Anônimo disse...

Legal, Edson! Farei o post. Mas, lembro que todos podemos postar aqui... o blog é do grupo... basta se logar... o espaço é livre... :)

Tão logo possa, escreverei sobre o segundo tema: "Mais conectados, porém menos inteiros nas relações." Acredito ter bons insights... Mas estou sentindo falta da participação dos nossos colegas... Cadê a interação?